Com recorde em maio, alertas de desmatamento na Amazônia indicam que temporada pode ter devastação maior que a anterior

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Taxa de desmatamento oficial, medida de agosto a julho, poderá ser maior na temporada que termina em 2020. A dois meses do fim do período, números atuais já indicam elevação de 78% nos alertas.

Os alertas de desmatamento na Amazônia tiveram recorde em maio de 2020. Foram registrados 829 km², o maior dos últimos cinco anos, desde que começou a série histórica. O número é 12% acima do registrado em maio de 2019.

Ao se observar os alertas emitidos durante os meses em que se calcula a taxa oficial de desmatamento, a tendência é de aumento na devastação da floresta nesta temporada que se encerra em 2020, se comparado ao período anterior – que já havia sido recorde em destruição de florestas.

Os dados são do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), atualizados nesta sexta-feira (12).

O coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace, Márcio Astrini, afirma que os meses de junho e julho representam 40% de todo o desmatamento do período – ou seja, se os dados já apontam tendência de aumento, é provável que ela se confirme.

“Se a gente reproduzir o mesmo ritmo, teremos taxa de desmatamento maior que do ano passado. Podemos ir para quase 12 mil”, afirma. “Os dados mostram que temos que nos preocupar. Alta [no desmatamento] é certo que vamos ter. Dificilmente não teremos uma alta considerável” – Márcio Astrini, Greenpeace.

“Os números indicam que o desmatamento está crescendo e continua acontecendo, mesmo após a repercussão das taxas do ano passado. Ele está mais agressivo. Os números vão subir e isso é fruto do que o governo faz de errado e se omite em fazer, o que seria sua obrigação”, declara.

O Relatório Anual de Desmatamento, organizado pelo projeto MapBiomas, apontou que a Amazônia perdeu em 2019 uma área equivalente quase dois mil campos de futebol em floresta.

O mesmo estudo indica que 99% do desmatamento no bioma é ilegal – o que indica que poderia ser combatido com ações de fiscalização e medidas punitivas.

“Falta de informação não é, os dados mostram claramente onde está o desmatamento”, afirma Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto Pesquisa Amazônia (Ipam).

“Para reduzir o desmatamento, é só combater a ilegalidade. É só ir nas terras públicas [sem destinação] e nas terras indígenas e unidades de conservação – só aí, reduziria-se 50% o desmatamento, porque 40% ocorre em terras públicas e 8% em terras indígenas e áreas que deveriam ser preservadas”, afirma Ane.

Infográfico mostra, em vermelho, que alertas de desmatamento desta temporada estão maiores que o registro anterior (em azul). Tendência é que taxa oficial de desmatamento da Amazônia seja superior à já registrada, que era recorde. — Foto: Aparecido Gonçalves e Juliana Monteiro/G1
Infográfico mostra, em vermelho, que alertas de desmatamento desta temporada estão maiores que o registro anterior (em azul). Tendência é que taxa oficial de desmatamento da Amazônia seja superior à já registrada, que era recorde. — Foto: Aparecido Gonçalves e Juliana Monteiro/G1

“De acordo com os compromissos assumidos na Política Nacional de Mudança do Clima deveríamos reduzir à taxa de desmatamento na Amazônia para 3.900 km² em 2020. No entanto, estamos seguimos na direção contrária. Em 2019, rompemos a triste barreira dos 10.000km² e os alertas do deter apontam para a possibilidade de ter uma taxa cerca de três vezes maior que a meta estabelecida para 2020, contribuindo negativamente para as mudanças climáticas e com a alarmante perda de biodiversidade”, comenta Cristiane Mazzetti da campanha da Amazônia do Greenpeace.

“O Governo Federal precisa parar de enviar sinais de que está do lado dos grileiros, garimpeiros e madeireiros ilegais, como tenta fazer com a ex-MP 910 e o atual PL 2633, que pode legalizar a grilagem.” Afirma Raul do Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil.

O que são os alertas de desmatamento?

Os alertas de desmatamento do Deter são emitidos para orientar as ações de fiscalização e combate ao desmatamento ilegal. As imagens de satélite analisam área de 25 hectares e indicam onde há indícios de mudança de uso da terra.

Desmatamento na Amazônia: reprodução de imagem de satélite mostra o comparativo na variação de tonalidades de verde da imagem de satélite (à esquerda, no topo) e das imagens reais da região degradada. — Foto: Reprodução/Inpe
Desmatamento na Amazônia: reprodução de imagem de satélite mostra o comparativo na variação de tonalidades de verde da imagem de satélite (à esquerda, no topo) e das imagens reais da região degradada. — Foto: Reprodução/Inpe

Já a taxa oficial de desmatamento é medida pelo Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), que analisa áreas de 6 hectares, é revisada por técnicos, e permite uma verificação mais acurada do que ocorreu em cada parte da floresta.

Por analisar áreas maiores e ser rápido (e, por isso, não tão acurado), o sistema de alertas do Deter capta sinais de devastação geralmente menores do que é registrado na taxa oficial de desmatamento – assim, se há tendência de elevação nos alertas, é preciso ficar atento à destruição real da floresta.

Na temporada de 2018/2019, o sistema de alertas detectou mais de 6 mil km² com sinais de devastação – a taxa oficial de desmatamento para aquela temporada fechou em 10.129 km² de desmatamento. É a maior área desde 2008, quando o Prodes apontou 12.911 km² desmatados.

Projeção do desmatamento

Uma análise feita pelo Ipam e divulgada no fim de maio aponta que o desmatamento da Amazônia poderá atingir 11,9 mil km², caso a devastação em maio, junho e julho siga a média histórica – número maior que do período anterior, que fechou em 10,1 mil km². Na época da análise do Ipam, os dados consolidados de maio não haviam sido divulgados.

Projeção do desmatamento da Amazônia, feito pelo Ipam, indica aumento da derrubada de árvores no bioma. — Foto: Infografia G1
Projeção do desmatamento da Amazônia, feito pelo Ipam, indica aumento da derrubada de árvores no bioma. — Foto: Infografia G1

Para chegar a este dado, o Ipam analisou os alertas de desmatamento do Deter e o consolidado do Prodes, considerando que os alertas do Deter são, em geral, 51% inferiores ao registrado na taxa oficial.

O Ipam alerta que o avanço do desmatamento deve levar o Brasil a ter aumento nas emissões de gases do efeito estufa, mesmo com paralisação de atividades na pandemia.

Queimadas

Queimadas na Amazônia chamaram a atenção da comunidade internacional — Foto: Carl de Souza/AFP
Queimadas na Amazônia chamaram a atenção da comunidade internacional — Foto: Carl de Souza/AFP

Com tanta árvore derrubada, especialistas estimam que a temporada de queimadas também deverá ser maior este ano.

Uma análise feita pelo G1 em dados do Banco de Queimadas, do Inpe, mostra que a temporada de queimadas começa com alta nos registros de incêndios no Pampa, Pantanal e Mata Atlântica.

Os três biomas apresentaram aumento no total de focos no ano: Pampa, 343%; Pantanal, 186% e Mata Atlântica, 44%. Em termos absolutos, a Amazônia é o bioma com maior número de focos de incêndios, antes mesmo do início da estação mais seca do bioma. Entretanto, na Amazônia, o acumulado no ano é 35% inferior ao verificado em 2019.

“Você precisa de três coisas para as queimadas na Amazônia: estação seca, material combustível, e alguém que risque um fósforo. E parece que quem risca fósforo nunca se sentiu tão à vontade para promover a destruição da floresta. Tem a combinação meteorológica, que acontece todo ano; tem o desmatamento, que está aumentando e assim tem mais material combustível no chão; e essa situação de quem pratica crime ambiental e fica impune”, afirma Astrini.

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